sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Amor e o Cofre



Por Mário Pires

Em lágrimas, uma jovem chegou ao sábio, no alto da montanha, e lhe disse:
- Mestre, eu não entendo as pessoas, nem o amor. Após anos convivendo com meu companheiro, ainda ontem, abri meu coração dizendo-lhe que, por ele, daria a minha vida. Que ele era a felicidade dos meus sonhos, a expressão maior do meu sorriso, o ar que respiro e a fonte de minha energia. Disse-lhe que por ele tudo faria, dia e noite, noite e dia, sem cansar.
Mas eis que, sem pestanejar, de imediato ele me questiona:
- Se me amas, dá-me a chave do teu cofre, onde guarda teus segredos. E ainda que, algo machuque, doa; quem ama perdoa, por isso não tenhas medo.
Tal jovem guardava segredos, entre coisas novas e antigas. E já era motivo de insegurança com seu companheiro.
Com o olhar fixado nas estrelas o Mestre a perguntou: - E então, concedeste a chave do teu cofre?
Baixando a cabeça, com o olhar direcionado às mãos, a jovem lhe respondeu:
- Não, Mestre. Pois neste cofre, guardo coisas do meu íntimo, que se descoberto, confesso, tenho medo.
- Suponho que por isso, ele tenha partido? Disse o Mestre.
- De certo, ele partiu. Disse-me que, tais segredos, geram-se dúvidas, confusão. E que dessa maneira, não podia mais conviver. Acreditava que o amor fosse maior que uma chave. E que se, no cofre haviam tantos segredos que não podiam ser compartilhados, não percebia ali mais motivos para juntos prosseguir. Contou a jovem, com um triste semblante.
Virando-se para ela, que ajoelhada, sentada sob o calcanhar, o sábio lhe disse:
- Amar é abrir-se por inteira. Ser como o  céu, que não esconde as estrelas para que possas deixar tua noite mais brilhante. Um livro aberto, com páginas livres para serem lidas, compreendidas e ensinadas. Límpido como as águas do mar, claro como a luz do sol. Ainda que a verdade traga ferida, o amor é capaz de curar, quando ela, a verdade, é proferida.
Colocaste a chave do teu cofre, onde mantém teus segredos, acima do Amor que dizes conduzir no teu peito. Demonstrando que, o que sai da tua boca, não condiz com o teu interior.
A cumplicidade no amor cabe a ambos. Porém, ainda que desafiador, destes motivos para a soberba, desconfiança e desarmonia.
Suspirando, o sábio voltou-se a contemplar as estrelas e em silêncio permaneceu.
Após alguns instantes, com os olhos marejados, a jovem o questionou:
- Então, o que agora devo fazer meu Mestre? Ensina-me de que maneira devo agir?
Já de olhos fechados, em sintonia com a natureza, sentindo a brisa noturna e fria que vinha das montanhas, o Mestre lhe respondeu:
- O que era pra ser dito, foi dito. Fazes tuas escolhas. Vai, repensas em tuas atitudes e no que sentes. Apenas afirmo: o verdadeiro se divide. E o que não é, obscurece.
E o sábio voltou a silenciar-se.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Crônica - Sobre Tradição e o Carnaval‏


Esta crônica foi publicada e veiculada em diversos sites de jornal,
blogs, rádios e perfis de facebook.

E se mudassem o,TRADICIONAL,
Circuito Osmar?

Encontro de Trios no Circuito Osmar
 
Por Mário Pires (*) 

Tradição é uma coisa que a própria palavra diz: ritos e costumes propagados de geração para geração. E o Circuito Osmar, trajeto do Carnaval de Salvador, que sai do Campo Grande e vai até a Praça Castro Alves, onde acontece o histórico encontro de trios, é uma das coisas mais tradicionais na Bahia.
Milhões de pessoas já passaram por este circuito, que desde 1950, quando Osmar Macedo e Dodô Nascimento subiram num calhambeque adaptado, batizaram com o nome de Fobica e saíram pelas ruas de Salvador, transformando e criando a tradição do circuito, hoje conhecido como Circuito Osmar.
Inúmeros baianos possuem lindas histórias para contar na participação desse trajeto de carnaval: amizades iniciadas, alegrias transbordadas, beijos trocados, relacionamentos começados e casamentos realizados. Muitos relatos escreveram a história de quando tudo começou naquele dia, naquele lugar, naquele carnaval. E essas histórias seguem de geração para geração.
Mas, e se mudassem o Circuito Osmar? Se tirassem do Campo Grande e levassem para outro lugar, ainda teria as mesmas vibrações? Quantas emoções seriam excluídas, quantas sensações positivas seriam abaladas? Mexer em tradições é mexer no coração das pessoas. Na história e no sentimento de vida delas.
Perdoem-me aos apaixonados, e defensores “sem causa”, mas Juazeiro é uma cidade “danada” a destruir suas tradições. E mudar o Circuito do Carnaval atual é mexer na tradição de um povo que, de tanto sofrimento, ainda busca a felicidade em alguns dias de folia.
Há pouco tempo, vi numa reportagem, a face triste e a lamentação pertinente de uma jovem senhora, que comentava sobre a destruição e depredação das casas e casarios históricos do município. Mas esta senhora tem a verdade na fala e a infelicidade nos olhos quando comenta tais agressividades. Ôh Juazeiro! Não têm dó de ti.
Aqui, cada um quer fazer algo “diferente”. Uns fazem melhor, outros fazem pior, outros não fazem nada. É tanta mudança, que ‘tu’, Juazeiro, estás toda retalhada. Talvez, muito mais ferida que os cortes nas costas, provocadas pela TRADIÇÃO, do autoflagelo dos Penitentes.
Eu, particularmente, ainda sou do tempo dos carnavais de clube, quando a Banda Mirage, Banda Ouro, entre outras, faziam a maior festa e levavam a alegria à comunidade juazeirense. É claro, que ainda tinham as escolas de samba – mais uma TRADIÇÂO abandonada - que desfilavam pela Adolfo Viana, indo pela Rua da 28 e seguindo pela Rua da Apolo, encerrando o percurso logo mais a frente. Alguns leitores serão capazes de comentar melhor sobre esses desfiles. Eu, ainda adolescente, apenas participava com os amigos nas festas do “leiloado” Country Club.
Quando se mexe em TRADIÇÂO, tem de ser para fazer algo melhor. Falta de recursos? Pode até ser. Carnaval aqui não é prioridade.
Um exemplo de quando se mexe em Tradição, foi derrubada da Tradicionalíssima Fonte Nova, para construir uma Arena com uma estrutura muito melhor.
E o novo percurso? Vai possibilitar aos foliões de curtirem com maior conforto os dias de momo? Ou somente é para reduzir custos? E o palco da 28? E a “turma” do “Tô na Esquina” para onde vai, se não haverá mais esquinas?
O Carnaval que era do povo, se transformou em business. Quem tinha o dever de promover a festa, investiu no sucesso de um novo quadriênio. E agora, com todo direito, quem faz o negócio, quer lucros.
“Dodô do céu mandou recado, notícias boas e lembranças, disse que tá do nosso lado... contou até como é que foi que Deus, abençoou o carnaval” (Moraes Moreira)
Preparem, ou não, os esparadrapos. Mais um retalho pode surgir nas TRADIÇÕES dessa terra amada por uns, usufruída por outros.

“Bom” Carnaval em 2013.

* Mário Pires - filho, de coração, de Juazeiro.