domingo, 5 de agosto de 2012

Um simples Jangadeiro


Por Mário Pires

Depois de um passeio de jangada com a esposa e o filho, um grande empresário contava as notas para pagar o jangadeiro, quando foi surpreendido com uma pergunta: “o senhor não deve ser feliz não é?”. Sem compreender o motivo de tal indagação, mesmo assim ele respondeu: - Claro que sou feliz! Sou um grande empresário, tenho carro importado, dinheiro no banco, sou reconhecido entre a sociedade, tenho um filho e uma esposa bonita, posso ir pra onde eu quiser e fazer o que quiser. Por isso me considero feliz. Respondeu. - Mas por que o senhor acha isso? Perguntou o empresário.
Contando o dinheiro do pagamento que acabara de receber o jangadeiro começou a respondê-lo: - O senhor pode ter dinheiro, mas não tem o mais importante na vida. – O que, por exemplo? Questionou mais uma vez o empresário.
- Bem, vou explicar. Eu não tenho o dinheiro que o senhor tem, mas sei que sou feliz. Não preciso pagar para desfrutar da natureza. Moro de frente para o mar e com uma imensa área verde ao meu redor. Sua mulher pode ser bonita, mas durante o percurso vocês pouco se falaram. Ela prestava mais atenção no que veste e nos cabelos do que no senhor. Nem te trata com carinho e só vive ligada no celular. Minha mulher pode não usar a mesma roupa ou ir ao mesmo salão, mas todas as vezes que chego em casa ela me chama de “meu amor” ou de “meu bem”. Não podemos comer as comidas mais chiques, mas tudo que ela faz pra mim, faz com carinho e dedicação. A gente sempre se abraça e trocamos carinhos. Quando a noite chega, costumamos contemplar a lua na beira da praia e ficamos a namorar, demonstrando assim nosso verdadeiro sentimento. O olhar dela me diz muito mais do que muitas palavras. Explicava o jangadeiro.
Enquanto a família se distanciava o empresário prestava atenção nas palavras do jangadeiro, que continuava: - Não tenho carro importado, nem carro do ano. Ando de jangada. Mas o senhor mesmo acabou de me pagar para ir aos lugares mais lindos que temos aqui.  E a sociedade, essa só te “reconhece” pelo dinheiro que o senhor tem. Mas sem o dinheiro, será que teria amigos de verdade, como eu tenho aqui? Eles gostam de mim pelo que sou, e não pelo que eu tenho.
Continuando, o jangadeiro olhou para o filho do empresário e disse: - Eu também tenho um filho. E quando estamos juntos, costumamos brincar e correr na praia. Ele gosta de nadar e pescar no mar e o ensino a cuidar e respeitar a natureza. A gente também se diverte bastante com nosso cachorro. Eu sempre digo o quanto o amo e ele me retribui todo seu amor. Quando o abraço sou capaz de chorar de felicidade. Ele tem um sorriso lindo e é um dos maiores presentes que Deus me deu. Enquanto o filho do senhor não brincou na praia, nem no mar e mal te olhava. O refrigerante e o jogo no celular não deixou ele te dar tanta atenção.
O empresário percebia que aquele rapaz de trajes simples e de uma sabedoria que jamais ninguém se aproximara para ensinar-lhe, estava mostrando-lhe, de uma maneira singular, os reais valores da vida e o deixou terminar. - Não é o tanto de dinheiro que o senhor tem numa conta bancária, nem a mulher mais bonita do mundo, ou o filho que não larga o computador que te faz uma pessoa feliz. O dinheiro pode te dar prazer, mas se não tiver o amor e o carinho de sua família, nunca haverá felicidade em sua vida. Não que o senhor tenha que vir morar na beira da praia e se tornar um jangadeiro como eu para ser feliz. Mas é dar e receber atenção, carinho e amor a quem está ao seu redor. E senti que falta isso no senhor. Por isso disse que não devias ser feliz.
Depois de ter escutado as palavras daquele jangadeiro, o empresário reconheceu que tudo aquilo que ele havia dito fazia sentido na sua vida. Na sua família não havia amor e carinho, apenas luxo e prazer. E naquele instante, notou o quanto realmente era infeliz.

* * *
Esta é apenas uma estória. Mas a realidade que ela trata, faz parte do cotidiano de muitas pessoas. Reflita sua vida e sejas mais feliz.
 

5 comentários:

Marizete disse...

Lindo, amei, é realmente um exemplo a ser seguido. Hoje é isso mesmo que acontece na vida da maioria dos seres humanos, é uma pena!!!

Márcia Parzianello disse...

Lendo a tua crônica, que é de uma sensibilidade fora do comum...
percebo que é por aí mesmo...é desse amor que devemos compartilhar.
Do olho no olho, do abraço apertado, da admiração...do carinho expressado
no fazer de uma comida...nas pequenas miudezas do cotidiano, é ali que o amor mora.
Não me ative muito na vida do empresário, pois prefiro esta simplicidade tão bem escrita por ti... é dentro dela que mora os melhores sentimentos e os pequenos
detalhes que fazem de nossa vida tão grandiosa!
Lindo dia prá ti!
Parabéns pelo belo texto.
Márcia

Carlene Sobreira disse...

Bom dia Mário,
Que nós possamos compreender o verdadeiro valor do que temos e não se deixar ser conduzido pelas aparências.
Bjus

Carlene

Mara Passos disse...

Parabêns Mario Pires, adorei sua crônica. E mais uma vez, parabêns pela forma inteligente de saber usar as palavras.

Das coisas que vejo e gosto. disse...

Lindo texto. Emocionante e reflexivo. Grande lição. Gostaria de saber se posso publicar lá no blog , darei todos os créditos a vc, claro.

Um blog maravilhoso.

Beijos,
Selma